[O caminho de Volta]

     [Leia ouvindo Jack Et La Mécanique Du Coeur - Dionysos]

(Jack e a Mecânica do Coração, 2013)

[– Será que posso voltar o curso do tempo invertendo o sentido dos meus ponteiros?
– Não, vai forçar suas engrenagens e sentir uma dor do capeta. Mas nada é capaz disso. É impossível retroceder no tempo até os nossos atos passados, mesmo com um relógio no coração." - Jack e a Mecânica do Coração - p. 54.]

[Ele era dado às mais belas viagens. Mas envelheceu. Se aposentou. Se mirrou.[VIAGEM]]


   Meu coração nasceu frágil como um pequeno pássaro que não podia ser contrariado. Palpitava como se pertencesse a um beija-flor: 1200 por minuto quando estava se apaixonando, dançando, viajando. Tratava-o exatamente como Werther: como uma criança mimada, satisfazendo-lhe todas as vontades, mesmo que as pessoas não compreendessem isso. Mas o disciplinei. 
    Meu coração voltou de viagem. Aposentou o chapéu de palha, desistiu das andanças sem eira nem beira. Cansou de pedir carona para os caminhoneiros. Não dorme mais em hotéis beira de estrada e desistiu de comer em restaurantes típicos de viajantes. Ele sorri humildemente, paga a própria conta e sabe a hora de ir embora sem se despedir. Não precisa mais de costura, apesar de ser cheio de remendos de linhas e tecidos de cores diferentes. Ele desfila seu próprio carnaval com orgulho, mostra seus retalhos como se fossem cicatrizes de guerra e grita comedido quando encontra alguém como ele. 
    Meu coração amadureceu, não olha mais as estrelas e já tem um rumo fixo que ele quer alcançar em um hiperfoco desenfreado. Meu coração quer desesperadamente ser feliz mas deixou de sonhar com amores bonitos. Desistiu dos ledos enganos, das confusões, dos extrapolamentos, dos desencantos e dos tiroteios. Cansou de ser sobrevivente e se instalou em uma casa pequena e aconchegante que não o faz retumbar mais. Aposentou o colete a prova de balas e sua língua munida de bons argumentos. Hoje ele faz o dever de casa e sonha baixo para não queimar suas asas de Ícaro. Ele desistiu de alcançar o sol e de ver as nebulosas de perto.
    Ele queria voltar a ser viajante, hóspede indesejado, sonhador incurável. Mas lhe falta força, âmago, vontade. Meu coração não sabe mais sobreviver à vida e por não saber ser contrariado não sai mais de casa com frequência. Foi disciplinado e condicionado. Queira pouco. Ame pouco. Sobreviva. 
    Vez ou outra, apesar disso, ele sonha. 
    Volta para aquela viagem quando aquele cara legal deixou que ele dormisse em seu ombro. 
   Volta para aquele dia em que deu seu primeiro beijo embaixo do seu aposentado chapéu de palha. 
    Volta para a primeira mágoa e para a primeira dor. 
    Repensa na poesia com gosto de coca-cola de Frank O'Hara.
    Relembra os ipês roxos. 
    Rememora o gosto do vinho daquela boca. 
    Pensa em viajar de novo. 
   Que pena. Que pena que os corações são tão teimosos e imaleáveis. Apesar de aposentá-los, eles sempre querem sair em viagens e amar com toda a sua loucura. Parece que nunca aprendem a sua lição.







Comentários

  1. Corações são corações. O sonhar não é teimosia, é natureza primordial. Os chapéus, mesmo os velhos e puídos, ainda servem nas mesmas cabeças e as adornam com memórias e sonhos.
    É impossível sobreviver a uma vida sem sonhos, da mesma forma que é impossível sobreviver a uma viagem sem chapéu.
    São eles que beijam nossa testa antes de dormir, levando-nos ao sono. São eles que nos acordam de manhã e preparam a mesa do café.
    O cansaço pode ter roubado o ânimo da viagem, mas as aventuras existem dentro de casa: é dar liberdade ao coração para sonhar e, sem pressa, voltar a viver.

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