[A Tal Síndrome de Peter Pan]
9 de janeiro de 2026, quase 10 de janeiro de 2026.
Eu a vejo brincando. Pequena espoletinha com os pés descalços. As Barbies, espalhadas. Pequenos gritinhos de alegria empilhados se espalham pela casa. Eu a imploro: "Fale baixo". Mas ela tem o tipo de infância que não pode ser controlada. Os cabelos desgrenhados em cachos rebeldes, a fronte irritadiça com uma precoce ruga de raiva. Os olhinhos são marcados com marcas de riso. Ela é uma criança feliz que não sabe falar baixo. Ela me sorri: "Eu não sei brincar de ser adulta. É muito difícil". E eu a amei mais do que sequer imaginava ser capaz.
Começou aos onze. Em meio a uma brincadeira de pique. Senti o molhado entre as pernas. Farejei o cheiro forte. Horas depois, o prognóstico: Sangue. Sangue. Sangue. Engoli o fel. A dor forte na barriga que nem mil comprimidos, nem horas de compressa quente aliviavam.
Depois vieram os manuais. Normas de conduta extensas que não descreviam a dor de se rasgar por dentro; nem me preparavam para amar honestamente com o coração espancado e as pernas cruzadas. Afinal, uma moça deve se comportar.
Depois vieram as horas de recreio.
A busca pelas notas altas.
As primeiras amizades e as primeiras mágoas.
A ausência das brincadeiras de pique.
O Peter Pan que nunca veio.
As fugas malsucedidas.
O primeiro amor.
O primeiro beijo.
O passar no vestibular.
A primeira taça de vinho.
E tantos outros primeiros.
E entender. Entender que na realidade eu estava linda naquele baile toda de rosa, mesmo que a maquiagem me envelhecesse meu rosto de dezessete. Na época, ninguém me avisou do brilho que se tem aos dezessete e do brilhante potencial que borbulhava ao meu redor, num caldo primordial, soltando a carne dos meus ossos e me permitindo usar a carne que eu quisesse para me misturar na multidão: qualquer profissão. Qualquer rosto. Qualquer persona.
E o restante veio.
O primeiro emprego.
A primeira decepção.
Novos amores.
Mil fugas em cima de mil tsurus, porque esperava um dia melhor.
O primeiro bar.
A primeira embriaguez.
O segundo e o terceiro emprego.
A rota tão sonhada com doze anos virando um sonho distante-distante.
Afinal, aos 25 já estamos atrasadas e não podemos mais alcançar todo o potencial; e a tal figueira da Sylvia Plath já secou e eu continuo com fome.
Eu olho para a criança de bochechas rosadas. Olhos brilhantes. Cílios longos. Consigo vê-la imersa em seu próprio caldo primordial, esperando para gerar vida: o potencial borbulha ao seu redor e a obriga a trocar de pele. Ela vai acreditar em como pode ser brilhante.
Ela parece esperar uma resposta.
"Eu também não sei brincar de ser adulta". Bato meus cílios e ela sorri como se a resposta bastasse por enquanto. Ela volta a correr e a gritar pela casa com seus passos desmedidos e sua voz estridente.
E eu juro...
É tudo do que eu preciso para continuar a brincar.
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