[A Tal Síndrome de Peter Pan]

 [Leia ouvindo "Home" - Edward Sharpe & The Magnetic Zeros]
["Eu vi minha vida ramificando-se diante de mim como a figueira verde da história. Na ponta de cada galho, como um figo gordo e roxo, um futuro maravilhoso acenava e piscava. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos, outro era uma poetisa famosa e consagrada, outro era uma professora brilhante, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro era Constantino e Sócrates e Átila e outros vários amantes com nomes exóticos e profissões excêntricas, outro ainda era uma campeã olímpica. E, acima de tais figos, havia muitos outros. Eu não conseguia prosseguir. Encontrei-me sentada na forquilha da figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia optar entre um dos figos. Eu gostaria de devorar a todos, mas escolher um significava perder todos os outros. Talvez querer tudo signifique não querer nada. Então, enquanto eu permanecia sentada, incapaz de optar, os figos começaram a murchar e escurecer e, um por um, despencar aos meus pés" - Sylvia Plath]


Laurie Lee Broom

9 de janeiro de 2026, quase 10 de janeiro de 2026. 


    Eu a vejo brincando. Pequena espoletinha com os pés descalços. As Barbies, espalhadas. Pequenos gritinhos de alegria empilhados se espalham pela casa. Eu a imploro: "Fale baixo". Mas ela tem o tipo de infância que não pode ser controlada. Os cabelos desgrenhados em cachos rebeldes, a fronte irritadiça com uma precoce ruga de raiva. Os olhinhos são marcados com marcas de riso. Ela é uma criança feliz que não sabe falar baixo. Ela me sorri: "Eu não sei brincar de ser adulta. É muito difícil". E eu a amei mais do que sequer imaginava ser capaz. 

    Começou aos onze. Em meio a uma brincadeira de pique. Senti o molhado entre as pernas. Farejei o cheiro forte. Horas depois, o prognóstico: Sangue. Sangue. Sangue. Engoli o fel. A dor forte na barriga que nem mil comprimidos, nem horas de compressa quente aliviavam. 

    Depois vieram os manuais. Normas de conduta extensas que não descreviam a dor de se rasgar por dentro; nem me preparavam para amar honestamente com o coração espancado e as pernas cruzadas. Afinal, uma moça deve se comportar. 

    Depois vieram as horas de recreio. 

    A busca pelas notas altas. 

    As primeiras amizades e as primeiras mágoas. 

    A ausência das brincadeiras de pique. 

    O Peter Pan que nunca veio. 

    As fugas malsucedidas.

    O primeiro amor. 

    O primeiro beijo. 

    O passar no vestibular. 

    A primeira taça de vinho. 

    E tantos outros primeiros. 

    E entender. Entender que na realidade eu estava linda naquele baile toda de rosa, mesmo que a maquiagem me envelhecesse meu rosto de dezessete. Na época, ninguém me avisou do brilho que se tem aos dezessete e do brilhante potencial que borbulhava ao meu redor, num caldo primordial, soltando a carne dos meus ossos e me permitindo usar a carne que eu quisesse para me misturar na multidão: qualquer profissão. Qualquer rosto. Qualquer persona.

    E o restante veio. 

    O primeiro emprego. 

    A primeira decepção. 

    Novos amores. 

    Mil fugas em cima de mil tsurus, porque esperava um dia melhor. 

    O primeiro bar. 

    A primeira embriaguez. 

    O segundo e o terceiro emprego. 

    A rota tão sonhada com doze anos virando um sonho distante-distante. 

    Afinal, aos 25 já estamos atrasadas e não podemos mais alcançar todo o potencial; e a tal figueira da Sylvia Plath já secou e eu continuo com fome. 

    Eu olho para a criança de bochechas rosadas. Olhos brilhantes. Cílios longos. Consigo vê-la imersa em seu próprio caldo primordial, esperando para gerar vida: o potencial borbulha ao seu redor e a obriga a trocar de pele. Ela vai acreditar em como pode ser brilhante. 

    Ela parece esperar uma resposta. 

    "Eu também não sei brincar de ser adulta". Bato meus cílios e ela sorri como se a resposta bastasse por enquanto. Ela volta a correr e a gritar pela casa com seus passos desmedidos e sua voz estridente. 

    E eu juro... 

    É tudo do que eu preciso para continuar a brincar. 

Comentários

Postagens mais visitadas